O Dilema das redes

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Nuno Figueiredo

14 de out de 2020

· 6 min de leitura

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“Se você não está no Google, você não existe”. Esta é uma frase forte de uma empresa que reclamou judicialmente de ter sido bloqueada pelo mecanismo de busca. São poucos os negócios que podem viver hoje em dia sem estar no Google.

A forma moderna de se fazer Marketing é digital. Não dá para fazer isso sem o Google. Para mim não há dilema das redes, há a forma como teremos que aprender a conviver com isso.

Sou da geração analógica. Isso não é uma vantagem, é um fato. Desgosto de quem vive se jactando “no meu tempo era melhor”, isso não existe. Cada tempo e cada geração tem seus prós e contras. Mas quem viveu na era pré Internet e mídias sociais, sabe que há vida fora do mundo on line. Talvez isto seja mais complicado para quem já nasceu na era digital.

Para alguém que valoriza os likes, o número de compartilhamentos, que vai paquerar pelo Tinder da vida, talvez a perspectiva seja bem diferente. Não sei dizer se a possibilidade de vício é maior na geração digital, mas o fato de crianças de 2, 3 anos terem um celular como forma de não incomodar os pais certamente vai cobrar seu preço.

O Dilema das Redes

O novo viral é o documentário da Netflix “O Dilema das redes”. Ele é muito bom, ele impressiona, mas cá para nós ele não traz algo de tão novo no radar.

Quando você não paga pelo serviço, você é o produto.

Hoje o mercado publicitário está fortemente concentrado nas big Techs: Facebook e Google. O valor deles é diretamente proporcional ao número de usuários e o tempo que eles ficam conectados.

O Facebook se incomodou com a repercussão do documentário da Netflix e rebateu os argumentos. Você pode ler a respeito neste link.

O primeiro ponto é que não dá para não participar das mídias sociais hoje em dia. Seria o equivalente a ser um Ermitão. Negócios são feitos, produtos são lançados e vendas ocorrem para quem está engajado nesse universo.

O que há, e isso não é novo, é que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Com exagero muitas coisas na vida se tornam ruins. O álcool é um bom exemplo. Pode ser um prazer, mas também pode viciar e destruir a pessoa e a família junto. O mesmo ocorre com jogos (on line ou não) e mais uma infinidade de coisas.

Um aspecto que chama a atenção é o trabalho que os algoritmos fazem para chamar a sua atenção. Um esforço deliberado e contínuo para servir o próximo post. O objetivo é manter você conectado o tempo todo, pelo maior tempo que for possível.

Isso se torna um substituto para o café. Antes a pausa no trabalho era ir tomar um café. Agora é dar uma checada no Face, no insta, no zap.

E isso cria hábitos ruins. Ficar o tempo todo checando mensagens e interações quebra a produtividade, atrapalha a concentração, e torna você quase escravo dessa parafernália.

Por que diabos temos que parar tudo para ler um comentário, um post onde alguém nos marcou ou simplesmente dar uma olhada no zap que acabou de chegar?

Isso já acontecia com o velho e-mail, que por sinal, continua vivo, firme e forte, coexistindo com tudo o que veio depois dele. Quanto tempo você fica sem checar a sua caixa de entrada? Eu dificilmente fico mais de meia hora sem fazê-lo.

A diferença é que o e-mail era assíncrono. Agora a coisa é on line. Estou lendo o seu post, logo curto, alguns segundos depois você vê que eu curti. Se eu comento você vê, se você responde eu vejo e isso vira um loop. Foi feito para engajar, foi planejado para viciar.

Outro ponto é que além de viciado, você pode viver numa bolha. Ao selecionar conteúdos que sejam do teu gosto e sugerir posts de pessoas que tem gostos em comum, os algoritmos te levam a crer que TODO o mundo pensa que nem você.

Além de reunirem os comuns, ainda gera um efeito colateral pior que é a ojeriza aos que pensam de forma diferente. Nunca fomos tão divididos em facções.

Já comentamos a respeito de viver numa bolha no post “Trust me or not”.

A única forma de sair da bolha é assinar blogs e ler notícias de veículos que tenham linhas editoriais antagônicas. De estimar o seu amigo que publica algo com viés de esquerda ou de direita, mesmo que você tenha uma visão oposta.

O poder dessas empresas tem que ser controlado e vigiado. Isso já está acontecendo. Já demos alguns exemplos neste post “O Momento Tabaco”. A LGPD é um dos muitos esforços para controlar e mitigar o estrago que as Big Techs podem gerar. O escândalo da Cambridge Analytcs e o Brexit são bons exemplos do estrago que esse poder, mal usado, por estas empresas ou por terceiros, que tenham acesso a esse manancial de informações pode gerar.

Hoje ninguém conhece tão bem você quanto esses algoritmos. O que você lê, o conteúdo que você consome, os lugares que você frequenta, dizem tudo a seu respeito. De coisas banais aos seus segredos mais íntimos.

A melhor sugestão que eu já vi é inserir nesses aplicativos uma funcionalidade de estou ocupado. Quem interromper você, com alguma interação, teria que solicitar urgência, para furar o teu estado de isolamento e fazer aquela mensagem chegar ate você. É um caminho.

Mas ter uma forma de vida saudável e não dependente é algo pessoal. As pessoas podem ser educadas ou reeducadas para terem melhores hábitos. Isso vale para as mídias sociais, para o álcool, para o consumo de doces, refrigerantes, para o praticar exercícios, entre outros. A lista é longa e interminável.

E até aqui só falamos das coisas ruins. Há muita coisa boa nisso também, caso contrário, isso não teria o alcance que tem. Não vejo um dilema da rede, porque não vejo como evitar o uso. Temos que aprender a usar da forma mais saudável possível.

 

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

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Ultimos comentários

Anthony

Parabéns pelo texto, forte abraço.

Hélio Sá

Muito bom!