O Home Office é a New Coke?

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Nuno Figueiredo

06 de out de 2020

· 8 min de leitura

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Comentei no post anterior que a Signa adotou o Home Office de forma permanente. Manteremos parte de nossa estrutura física para operar como local de CoWorking. Recebi algumas dúvidas a respeito e questionamentos de como fica a interação entre os colaboradores, aquele bate papo no café que promove vínculos e incentiva a inovação.

A partir dessas contribuições, vamos estender o assunto.

O Reinaldo Barreto compartilhou comigo o texto “Reflexão sobre o Home Office”. Achei este texto em vários blogs. Nem todos com citação da fonte, salvo engano, me parece que ele vem de um artigo título é “Home oyster”.

Em resumo, compara o Home Office à New Coke, que em pesquisas se revelou ser bem superior à Pepsi, e cujo lançamento foi um fracasso. No artigo, tornar permanente o Home Office é incorrer em erro similar

“Sancionar home office em caráter permanente pode ser a nova New Coke”

Além disso recorre à metáfora da ostra. Alguém confinado na sua casa não vai interagir, e ainda afirma que a inovação vem da troca de ideias dos colaboradores, daquela conversa informal no café. Até o Steve Jobs é mencionado. O artigo tem um ponto pertinente: quatro meses de experiência não é tempo suficiente para tomar uma decisão definitiva.

Na verdade, meu pensamento vai na direção contrária. O HO é o novo, e tudo o que é novo esbarra no velho jeito, no sempre fizemos assim. Vários estudos mostram que a criatividade e a inovação não são eventos acidentais, são planejados. Não ocorre do nada. A minha realidade é ver pessoas que sentam uma do lado da outra não se falarem e baterem cabeça.

Analisando a New Coke

Um grande especialista em estratégia de marketing, Al Ries, analisou profundamente o embate Coke x Pepsi, em dois livros muito interessantes: As 22 leis do Marketing e Marketing de Guerra, dois best sellers do século passado.

Segundo Ries, o grande erro da Coca é ter achado que a escolha do consumidor era pelo produto. Quem toma Coca, ama a Coca, nunca tomará Pepsi (salvo quando não tem Coca). Não entender isso e querer lançar um produto mais parecido com a Pepsi é reconhecer mérito no concorrente, algo que os fãs da Coca nunca perdoaram. A guerra ocorre na mente do consumidor, não no produto.

“Muita gente pensa que o marketing é uma batalha de produtos. No final das contas, supõem, o melhor produto vence […] É uma ilusão. Não há nenhuma realidade objetiva. Não há fatos. Não há melhores produtos. Tudo o que existe no mundo de marketing são percepções na mente do cliente ou cliente em perspectiva. A percepção é a realidade. Tudo o mais é ilusão. Toda verdade é relativa. Relativa à nossa mente ou à mente de outro ser humano.

[…] Alguns executivos dos refrigerantes acreditam que o marketing é uma batalha de paladares. A Coca-Cola Company realizou 200.000 testes de paladar que “provaram” ter a New Coke gosto melhor do que a PepsiCola e que a Pepsi é mais gostosa que a fórmula original da Coca-Cola agora chamada de Coca-Cola Classic. Então, quem está ganhando a batalha de marketing? A New Coke, que a pesquisa mostrou ter o melhor sabor, está em terceiro lugar. A Coca-Cola Classic, que a pesquisa mostrou ter o pior sabor, está em primeiro lugar. As pessoas acreditam naquilo que querem acreditar. Provam o que querem provar. O mercado de refrigerantes é uma batalha de percepções, não de sabor.

Se for para citar Steve Jobs, o que a Apple fez foi criar fãs da marca. Gente que não só ama, mas defende a marca como se fossem seus filhos. Os mais engajados são facilmente confundidos com fanáticos. Não é pelo produto que uma multidão ficava madrugada a dentro, numa fila no meio da rua, esperando a loja abrir para ser o primeiro a adquirir o último lançamento do iPhone.

Acredito que haverá sim a necessidade de encontros presenciais, principalmente para novos funcionários, e para recursos que trabalham no mesmo projeto para fomentar o espírito de equipe.

A maior perda será a falta de conexão fora da empresa entre os recursos. A turma que almoça junto e sai para o Happy hour. Muitos fazem amigos no trabalho, alguns até casam com ex-colegas de trabalho. Isso tende a diminuir, e afeta principalmente os novos contratados, que terão menos oportunidades de estreitar relações. Há vários estudos que mencionam que a colaboração é mais forte quando há bom relacionamento pessoal entre os recursos.

Home Office não é para todos

A primeira coisa que deve ficar clara. O Home Office não é para todo mundo. Não dá para um motorista ou um ajudante operaram de forma remota. Além disso há o perfil de cada um. Alguns preferem atuar presencialmente, e não há nada de errado com isso. Outros simplesmente não conseguem abraçar o novo, e o fazem de forma compulsória, irritados, reclamando, e contando os dias para voltarem ao normal. Se fecham aos aspectos positivos da mudança.

Não é só benefício

Qualquer mudança tem coisa boas e ruins. Se olharmos somente o lado vazio do copo, só veremos os problemas.

E tem que se analisar a realidade de cada empresa. Para a Signa faz todo o sentido o HO, não significa que isso seja igual para todo mundo. Eu apenas acho que faz sentido para a maioria, desde que a atividade permita o trabalho não presencial.

Não precisa ser radical

Como tive a oportunidade de comentar no último post a respeito de HO, tínhamos a opção de operar 100% em HO ou em modelo de CoWorking, optamos pelo segundo.

Nós respeitamos quem pediu para continuar tendo um local fixo de trabalho. Para os demais deixamos lugares disponíveis para irem até a empresa sempre que quiserem, ou quando for demandado.

E eu acho que esse será o modelo predominante. Algo híbrido. O percentual será variável dependendo da realidade de cada empresa.

Não precisa ser um ou outro. Os colaboradores podem trabalhar alguns dias da semana em HO e outros de forma presencial. A empresa terá que promover encontros presenciais entre os times, para não perder o contato direto. O modelo de CoWorking atende as duas necessidades, gera custos menores, e promove mais qualidade de vida.

E como fica a inovação?

Não acredito que a inovação seja algo acidental. Por acaso algumas pessoas se encontram no café e dali nasce o novo iPhone? Temos uma visão romântica que alguém está no lugar certo, na hora certa, e tem uma ideia e voilà.

Não é assim. Tanto a parte da ideação quanto a do desenvolvimento e implantação requerem várias competências. Gosto do método PEP, que descreve os 3 fatores que mais promovem a inovação: Paixão, Experiência e Persistência.

Mas isso é assunto para outro post. O HO não fecha as pessoas numa ostra, a não ser que isso seja uma opção pessoal. Há várias ferramentas para ficar conectado e interagir.

Concluindo

Há alguns anos tentei promover na empresa o trabalho remoto de forma gradual. Fiz um benchmarking com um parceiro que opera 100% de forma remota. Ao ver isso funcionando, vi um caminho a ser trilhado. Não fomos muito efetivos. O meu parceiro me alertou que ele já nasceu 100% virtual, e que isso simplificou muito a implantação.

Virar do presencial para o remoto é mais complexo e bate de frente com a realidade que todos conhecem. Nossa experiência anterior com o HO foi muito tímida e ocorreu mais com um recurso já contratado para operar remoto. Antes da pandemia tínhamos dois colaboradores que trabalhavam 100% de forma remota, e vários que trabalhavam em casa um dia ou outro.

A Pandemia acelerou muito isso, tirou barreiras da frente. Ainda que não seja para todo mundo, ainda que a maioria vá operar no modelo híbrido, acredito que isso terá fortes impactos. Ainda é cedo para mensurar. O HO não é a New Coke, até porque de novo esse produto não tinha nada. Seu mérito era ser mais parecido com a Pepsi, não é à toa que não deu certo.

 

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

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