O lockdown e o futebol

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Nuno Figueiredo

30 de mar de 2021

· 6 min de leitura

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Você é a favor do lockdown?

Para mim isso equivale a perguntar se sou favorável a operar o apêndice. Somente se for realmente necessário. Ninguém gosta de cirurgia e ninguém deveria gostar de lockdown.

O que está ocorrendo no futebol mostra bem como o assunto não pode ser avaliado e discutido de forma mais rasa.

No ano passado quase todos os times e quase todos os atletas foram favoráveis a parar os campeonatos para preservar vidas. Enquanto a decisão não era tomada, houve atletas que entraram em campo protestando: “O melhor protocolo é o que preserva a vida”.

Hoje com um número muito maior de mortos por dia, e com a saúde na beira do colapso em vários estados, o futebol nacional continua com restrições em alguns estados aqui ou acolá.

O que mudou de lá para cá é um sintoma claro de porque a discussão é complexa.

Em recente reunião da CBF, todos os times consultados foram favoráveis à continuidade dos jogos. De lá para cá todos os times amargam uma queda expressiva de receita. Eles não recebem da Televisão se o campeonato estiver parado. A renda do público nos estádios nem entra nessa conta, porque o futebol seguia sem a permissão de público.

E na declaração de alguns jogadores fica clara a situação. Todos lamentam ter que jogar em plena pandemia e nas atuais condições, mas eles frisam que a realidade dos grandes clubes é bem diferente de clubes médios e pequenos.

No campeonato Paulista, há clubes cujo principal evento do ano é este campeonato. Sem ele, a sobrevivência do clube fica capenga. Há clubes que fazem contratos com jogadores com vigência somente durante este campeonato, porque não tem dinheiro para contratos mais longos. Um simples adiamento de datas, significa que o clube pode não ter elenco para finalizar os jogos, ou entra em campo com um time menos competitivo.

Em se tratando de times de médio porte, o efeito é grave, mas ele sobrevive. Em times da série B, C e D, quanto mais para baixo mais dramática é a situação. Tem muita gente que sobrevive mal e porcamente do que ganha no futebol. Não são só jogadores, mas os outros profissionais do entorno, como massagista, treinador, pessoal da limpeza, etc. Como toda a estrutura, há uma cadeia que é afetada.

Em primeiro lugar, é bom deixar claro, que em relação às vidas perdidas e ao caos que estamos vivendo, ter ou não jogo de futebol não é a minha grande preocupação. O futebol aqui é usado apenas como exemplo de uma atividade não essencial.

Em segundo lugar, é bom frisar, que entre preservar vidas e manter uma atividade ocorrendo, sou favorável à primeira, sem esquecer da segunda, mas elas rodam nesta ordem.

Nunca irei criticar quem precisa trabalhar para levar o leite das crianças para casa. Todo e qualquer trabalho que sustenta alguém é essencial para essa pessoa.

É simples alguém que tem o seu garantido no fim do mês defender a paralisação das atividades, mas neste ponto, as escolhas são difíceis e devem ser encarados pela sociedade como um todo. Não há decisão fácil, está na mesa efeitos devastadores dependendo do que se escolhe.

Ninguém gosta de lockdown, de ter que fechar comércios e de ter que restringir a liberdade das pessoas. O que me passa na cabeça nesse momento é o que eu faria se fosse minha esta decisão, se eu fosse o gestor responsável.

Deixar a atividade funcionando normalmente e permitir o colapso da saúde significa decidir ligar o botãozinho para aqueles que irão precisar de um atendimento de emergência, seja por COVID ou não.

Então de um lado você pode ser o responsável pela quebra de algumas empresas, pelo desemprego de várias pessoas e no limite, por gente que vai passar toda a sorte de necessidades, e talvez, até fome. Por outro lado, todos estes fatores possuem remédio, mas não há remédio para a morte.

O mesmo governo que decide pela paralisação, pode gerar estruturas de apoio a empresas e a pessoas para minorar os impactos econômicos, ou no limite, impedir situações extremas, como a fome.

Estou há 25 anos à frente de uma empresa, e eu sei melhor que ninguém que nenhuma empresa sobrevive sem faturamento. Dependendo do tamanho e da situação, a empresa aguenta alguns dias, algumas semanas, alguns meses no caso das maiores. Nenhuma empresa tem condições de operar no longo prazo tendo a sua atividade fechada ou operando sob sérias restrições.

Como bem lembra a carta feita pelos banqueiros e economistas, o Brasil precisa de medidas urgentes que permitam conter a pandemia e permitir a retomada econômica. É uma questão simples, se o vírus não for contido, ele se adapta, se transforma, e novas cepas podem vir a ser mais fatais, mais transmissíveis e até imunes às vacinas existentes. É uma corrida contra o tempo.

Não há uma escolha de seguir trabalhando normalmente, porque isso torna a pandemia algo mais duradouro, e ninguém aguenta lockdowns frequentes e nem o impacto econômico devastador que a COVID está gerando ao país. Até que todos sejam vacinados, se for necessária a cirurgia, é melhor do que morrer.

Agora temos as próprias empresas se colocando em lockdown, como ocorreu com a montadora Volkswagen, que suspendeu a produção de veículos no país entre 24 de março e 4 de abril.

Como já comentamos no post “A Logística não pode parar”, a opção de ficar em casa não é para todos, mas parece que se quisermos continuar tocando, mesmo que parcialmente, nossa vida, vamos acabar prolongando e aumentando o problema.

Eu adoro ver um bom jogo de futebol, mas parar por um tempo talvez seja o caminho mais curto para termos a nossa vida de volta, sem restrições. Enquanto a vacina não vem, não temos boas opções disponíveis, temos que escolher a menos ruim.

E se você fosse o gestor disso. Qual seria a sua decisão?

 

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

Foto: Freepik

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Ultimos comentários

Jorge Abussafy

Difícil entender que o bom senso poderia ser considerado até mesmo no caos da Pandemia. No meu entender, acho que o futebol deveria ser paralisado ao final dos torneios que estavam em disputa. Uma vez encerrados, uma paralisação para observar os acontecimentos seria saudável. O esporte já estava quase nulo pela falta do ingrediente principal, a presença do público nos estádios, agora está sem graça, tentando gerar um pouco de alegria no meio de tanta tristeza e está perdendo o jogo. Por falar em perder, estamos perdendo o timing para muita coisa. Como nos foi ensinado em Eclesiastes 3, há tempo para tudo, só temos que usar a sabedoria na hora certa.

Hélio

Decisões são sempre difíceis, mas ainda quando se trata de vidas. Infelizmente o Lockdown, mas não como está sendo feito, onde ônibus, metrôs, Atacados, Supermercados ficam lotados e sem controle nenhum, Isso também não está sendo justo com ninguém.