O problema é o vizinho

Podemos viver considerando um mundo de abundância ou escassez. Não é uma escolha tranquila e, muitas vezes, não é feita de forma totalmente consciente.

Uma pesquisa feita na Inglaterra perguntava se você prefere trabalhar na empresa A, onde você vai ganhar € 2.500 e será o maior salário do departamento, ou se você prefere trabalhar na empresa B, onde você irá ganhar € 3.000, mas terá o salário mais baixo na equipe. Qual você escolheria?

Pois é, a grande maioria dos entrevistados escolheu ganhar menos, mas ficando melhor posicionado em relação aos seus pares. É o dilema citado no poema de John Milton, onde o anjo Lúcifer prefere ser o primeiro no inferno a ser o último no céu:

"Melhor reinar no Inferno do que obedecer no Céu."

Esta passagem de Milton é citada no episódio Space Seed de Star Trek. Eu não conhecia Milton até ouvir esta referência. Aliás, este episódio gerou posteriormente um dos melhores filmes de Star Trek, a Ira de Khan, que é o personagem que cita a obra de Milton. Nesse episódio, Khan se compara a Lúcifer: melhor reinar num planeta inóspito do que servir, digamos, na Enterprise.

É o que afirma também o economista e professor Samy Dana:

“Uma pessoa fica feliz se sua renda melhora em relação a outras pessoas. Se a renda de todos aumenta, ou pior, se a renda dos outros aumenta mais do que a daquela pessoa, o efeito não é o mesmo.”

Você pode ler mais a respeito no artigo “Dinheiro só traz felicidade se o vizinho ganhar menos”. Aliás, o nome do artigo já é bem esclarecedor. Não importa a sua situação e sim como você se vê em relação aos seus pares.

O Silêncio dos Inocentes

No maravilhoso filme o Silêncio dos Inocentes, o psiquiatra-canibal Hannibal (Anthony Hopkins) ensina a jovem agente do FBI, Clarice Starling (Jodie Foster), a concentrar as suas investigações na primeira vítima de um serial Killer. A cobiça, ele ensina, precisa ser alimentada diariamente. Esta é a chave para pegar o assassino, e é um grande aprendizado.

O Hannibal nos diz que ver uma Ferrari passar na rua não nos afeta muito. Se você gostar muito do carro vai parar e prestar atenção nele. Talvez você se permita uns 15 segundos de inveja em relação ao motorista, e deu. Agora, se o teu vizinho na garagem ao lado tem uma Ferrari, aí é outro problema. Diariamente você poderá se sentir mal em relação a isto.

A boa notícia é que é humano se sentir assim. Como você vai lidar com isso é uma escolha. Conseguir viver bem e celebrar as conquistas de quem está próximo, isso é algo a ser perseguido. Não faz nenhum sentido fazer o oposto, mas quem disse que o ser humano é algo que faça sentido?

O Stephen Covey trata da mentalidade da Abundância / Escassez de uma forma magistral em seu livro “Os sete hábitos das pessoas altamente eficazes”, um best seller de 1989, ainda atual.

“Muitas pessoas vivem segundo o roteiro daquilo que chamo de Mentalidade da Escassez. Elas encaram a vida como uma fonte limitada, como se só houvesse uma torta disponível. E, se alguém pegar um pedaço grande da torta, todos os outros comerão menos. A Mentalidade da Escassez é o paradigma da contagem regressiva na vida.”

Isso vai além da sua vida pessoal. Pode interferir na ação de um gestor, como ensina o Covey.

“Com frequência procuram clones, e se cercam de ‘vacas de presépio’, pessoas que não as desafiam, mais fracas do que elas. Quem tem uma Mentalidade da Escassez encontra muitas dificuldades em participar de uma equipe que se complementa. Elas encontram a diferença como um sinal de insubordinação e deslealdade.”

De uma forma geral estamos cercados de atividades que estimulam o conceito da escassez. Nos esportes um, e somente um, pode ser o campeão. Ser o vice é algo amargo demais.

Está na moda textos que dizem que somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos. Um convite a refletirmos com quem passamos mais tempo, mas isto é uma reflexão para outro momento. O ponto é que se somos influenciados por quem mais convive conosco, seria prudente e inteligente nos cercarmos de pessoas melhores do que nós. Isso nos faria evoluir. E o contrário também seria verdadeiro.

O Adriano Silva dá uma dica interessante para você contratar alguém: “Contrate alguém melhor do que você!”. Se você vive na abundância verá que isso é uma boa ideia.

Voltando ao Covey, gosto dessa descrição da abundância.

“A Mentalidade da Abundância, por outro lado, deriva de um senso profundo de valor e segurança pessoais. Seu paradigma indica que existe bastante para ser repartido entre todos. Esta atitude resulta em compartilhar prestígio, reconhecimento, lucros e a tomada de decisões. Ela abre as portas para novas possibilidades, opções e alternativas, além de liberar a criatividade.”

O hábito de número 4, dos sete hábitos, é pensar no ganha-ganha. Manter relações e negociações que permitam que todos se beneficiem. O oposto disso é o ganha-perde, onde para você ganhar, alguém tem que perder. Uma conta que não fecha.

Numa equipe, ter a mentalidade da abundância é fundamental. Quem acha que só tem um lugar disponível para se dar bem, não jogará para o time. Esse cara não ensina nada a ninguém e, se puder, ainda deixa algumas cascas de banana pelo caminho.

Se você vive olhando para a abundância, não verá problema em permitir que alguém também ganhe.

 

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

 

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1 Comentarios
  • Juliano Claiton - 11/06/2019
    Excelente matéria. Parabéns!