Estatística

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por

Nuno Figueiredo

24 de nov de 2020

· 4 min de leitura

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Um amigo resolveu provar que a pesquisa eleitoral não funciona. Ele efetuou 100 ligações e concluiu pela amostra que a sua mãe seria a próxima presidente do Brasil.

Ele efetuou todas as ligações de madrugada. Após tocar insistentemente, quando alguém sonolento atendia, ele perguntava:

- Em quem você vai votar para presidente?
A resposta mais comum era:
- Na tua mãe, seu...

A piada brinca com o sentimento comum dos que desconfiam das pesquisas. Mais do que desconfiar da idoneidade de um instituto, há uma incredulidade de como uma amostra de 2000 pessoas pode indicar o que 130 milhões pretendem fazer.

O assunto normalmente é espinhoso e produz facilmente enganos. Por exemplo, na Copa do Mundo, após o excelente resultado obtido pela seleção Uruguaia, li em várias entrevistas, que isso era um ótimo resultado, principalmente, considerando que o país tem três milhões de habitantes. Será? Se isso fosse a regra, a melhor seleção do mundo estaria na China, com seus um bilhão e 350 milhões de possíveis jogadores (está certo que ainda temos que tirar a população feminina, mas também não fizemos isso no caso do Uruguai), seguida pela seleção da Índia, Rússia e por aí vai.

No mesmo raciocínio, como pode uma pequena ilha como Cuba produzir tantos atletas olímpicos que a permite estar sempre bem colocada em qualquer Olimpíada?

Nem sempre o que parece fazer sentido é o certo. Eu li há algum tempo um artigo ótimo sobre os erros comuns que fazemos quando pensamos em estatística. Um deles, é que seja qual for o assunto, ao distribuir o mesmo em um gráfico no formato de uma pizza, a soma tem que dar 100%. Até aí é óbvio, mas imagine que falamos das doenças que mais matam e que o primeiro colocado, o Câncer, corresponde a 15% das mortes. O que acontece se alguém descobrir a cura definitiva para o câncer? As demais doenças tem que se reposicionar para que a pizza volte a dar 100%. Neste caso imagine se a segunda causa de morte for o enfarte, que antes estava em 12% e devido ao novo arranjo da pizza foi para 20%. Qual seria a manchete? Provavelmente que há um aumento nas mortes por doenças cardíacas e um monte de desavisados sairia culpando os McDonalds da vida, ainda que neste exemplo os números absolutos sejam os mesmos, apenas houve um mudança de percentual.

Tive um professor que dava um exemplo ótimo para não levarmos em conta uma média. Ele dizia que se o seu pé estiver a zero grau célsius e a sua cabeça estiver a 50 graus, na metade do seu corpo a temperatura média será de agradáveis 25 graus e, no entanto, você estaria morto.

Existe ainda o problema da amostragem. O fato de todo mundo na sua família predominantemente votar em algum partido, não implica numa tendência geral. Tem que selecionar amostras que representem o todo, variando a idade, o sexo, a escolaridade, a região que vive (capital / interior), a religião; enfim, o número de fatores que pode influenciar e distorcer o resultado não são pequenos.

Acima de tudo, apesar de ter fundamentos matemáticos, a estatística está longe de ser precisa, por isso mesmo há uma margem de erro, e ainda assim, não faltam exemplos de onde ela falhou. A priori não é para isso que ela serve. Se ela indicasse de forma infalível a decisão de uma população, não haveria a necessidade de uma eleição, porque a pesquisa sairia muito mais barato.

Mais do que apontar a realidade, a pesquisa aponta uma tendência. O que os institutos não dizem é que ela é uma fotografia imprecisa, que capta uma imagem daquele momento, ainda assim com fatores que podem induzir ao erro, sendo o pior deles a ‘sacanagem’ do entrevistado que pode dizer algo diferente do que pensa somente para ferrar a estatística.

Com a continuidade das eleições, em breve virão novas pesquisas e voltaremos a discutir se elas ajudam ou atrapalham. Pelo menos uma certeza já temos, mesmo antes da primeira pesquisa ser publicada: a mãe do amigo acima não foi para o segundo turno.



Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

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Ronezio Fontes Spinosa

Ótima matéria!

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