Atire a primeira pedra

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Nuno Figueiredo

14 de jul de 2020

· 4 min de leitura

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“O melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão”.
Machado de Assis (Livro Quincas Borba)

O chicote só fica bem nas mãos do Indiana Jones. Ainda mais quando ele se digladia contra algum nazista. Era um instrumento comum na escravidão, também usado como punição para prisioneiros.

Hoje temos o chicote virtual, mas o espírito é o mesmo da frase de Machado, aprecia mais o linchamento virtual quem participa do lado do teclado que condena.

Indiana Jones

E temos o caso atual duma engenheira ao ser abordada por um fiscal na Barra da Tijuca, no Rio. Isso foi filmado no Fantástico, e repercutiu em toda a imprensa. O diálogo está abaixo, um casal discute com o fiscal:

- “Não vai falar com seu chefe, não?”, questionou o homem.
- “A gente paga você, filho. O seu salário sai do meu bolso” - afirmou a mulher.
- “Cadê sua trena? Quero saber como você mediu sem trena”, ironizou o homem.
- “Tá, cidadão” O fiscal respondeu
- “Cidadão, não. Engenheiro civil, formado. Melhor do que você”, a mulher rebateu.

Somos muito rápidos para julgar e apontar o dedo. Quanto mais reprovável for o erro, mais fácil é de crucificar o infeliz que errou. Não se trata de defender o indefensável. Apenas meditar a respeito de até onde iremos nessa toada condenatória.

Ela está errada. Deveria ser multada. O bar não respeitou o distanciamento recomendado, deve ser multado também.

Se fosse um julgamento de verdade teria um juiz, talvez um júri e uma dosimetria, ou seja, o juiz tem parâmetros legais que definem o tamanho da pena, normalmente proporcional à gravidade do crime.

E em tempos de rede social, você pode estar num bar, bebeu um tanto a mais, e participou de alguma cena lamentável, fez uma brincadeira inapropriada ou até inaceitável. Você foi escroto ou preconceituoso, enfim você está totalmente errado. Ainda assim as consequências deveriam ser proporcionais ao delito.

Eis que a moça foi demitida. Ela perdeu o emprego porque em seu tempo livre foi a um bar, e nele, teve uma atitude escrota.
Aí eu me pergunto, e se fosse um colaborador da minha empresa, eu demitiria?

A minha resposta é que não. Não estou certo até que ponto as empresas tem que monitorar e responder por atitudes de seus funcionários em seu tempo livre.

O fato é que há cobrança social. Uma vez identificado onde a pessoa trabalha. Ao se mencionar o nome da empresa, e isso ganhar publicidade, as pessoas começam a cobrar um posicionamento da empresa. Perguntas como: “Você empresa X concorda com esse tipo de atitude? Você vai continuar dando emprego a esse tipo de colaborador?”.

E bingo, sai um comunicado oficial: “não compartilhamos desse pensamento e a colaboradora foi sumariamente demitida”. Ela foi demitida através de um comunicado à imprensa.

“Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.”

Tem uma passagem bíblica onde os escribas e Fariseus levam uma mulher apanhada em adultério para que Jesus opine se ela deve ser apedrejada, e Jesus intercede para evitar o linchamento. Sim naquela época era socialmente aceitável apedrejar alguém até a morte porque cometeu adultério.

E Jesus diz:

“Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.”

Isto virou uma discussão num grupo de governança corporativa: Até onde a empresa tem que atuar e se manifestar por eventos da vida particular de cada colaborador?

E aí se entra no mérito se o código de conduta da empresa deixa claro essa regra.

Isso tornará a nossa sociedade melhor e mais inclusiva ou criaremos bodes expiatórios que serão apedrejados em praça pública para expiarem nossos pecados?

Eu fui um dos que condenei esse comportamento nas redes sociais, porque basicamente ele é errado mesmo. Eu não demitiria alguém por ter tido um momento infeliz como esse.

Se a engenheira não serve mais para a empresa que a demitiu, servirá para outra? A saída então seria uma lista negra de pessoas que tiveram atitudes escrotas. Nesse caso essa mulher nunca mais vai conseguir trabalhar, pelo menos até que os seus 15 minutos de fama acabem.

O que você faria? E não pense só em você. Se alguém próximo a você (irmão, filho, amigo do peito) tiver seus 5 minutos de atitude escrota, vale a mesma regra?

 

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

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Ultimos comentários

Reinaldo Lima Barreto

👏👏👏

Alfredo Lima

Brasileiro, cristão, negro, Bacharel em Ciência da Computação pela UMC e MBA em Investimentos & Private banking pelo IBMEC, corintiano (aqui me sinto melhor, rsrs). Brincadeiras à parte, ninguém deveria se julgar melhor que ninguém. Contudo, sim, somos humanos, sujeitos as mais desprezíveis atitudes, porém, não significa que devemos julgar, condenar e executar todos aqueles que erram. Como bem citado: Atire a primeira pedra, aquele que nunca errou. Infelizmente, estamos vivendo uma época de inversão de valores, onde as pessoas sempre dispostas a aplaudir e rir da derrota dos outros e esquecendo de: Amar ao próximo como a si mesmo.