A nova cadeia global de abastecimento

A china bloqueou 500 dos 3000 respiradores adquiridos pelo governo de São Paulo e que seriam destinados a UTIs. A China ainda impôs restrições logísticas que limitam o embarque a 150 unidades. Ao invés de um frete consolidado, terão que ser feitas n viagens fracionadas. E o custo logístico não é a parte relevante. Serão vidas perdidas de pacientes que não terão o respirador disponível no tempo necessário.

O fato do mundo se encontrar dependente da China para comprar itens básicos como máscaras, respiradores, entre outros, indica o lado frágil da globalização e da otimização da cadeia global de abastecimento.

O modelo ótimo de performance, economia de insumos e gestão de estoques foi pensado e planejado para otimizar a cadeia em situações normais. Como aprendemos a resolver problemas na física, considerando situação normal de pressão e temperatura, com gravidade fixa e sem atrito. Pois é, não estamos em tempos normais.

Uma economia pujante como a Brasileira deveria ser capaz de se virar e produzir seus próprios respiradores, certo? Bom, nem a Americana consegue fazer isso, imagine nós. Não é porque a tecnologia necessária não está disponível ou dominada.

A empresa Israelense Medtronic, num ato muito altruísta, liberou todas as suas patentes do seu respirador portátil. É público, qualquer um pode produzir. Por que não produzimos? Bom, são décadas de globalização produzindo onde é mais interessante do ponto de vista econômico. A China se tornou a grande fornecedora global. E de repente, esse grande fornecedor não consegue atender um pico de demanda global.

Não basta montar o respirador, a maior parte de suas peças também vem, adivinhe só, da mesma China.

Até para produzir máscaras de pano precisamos dos chineses. Uma costureira júnior com um curso básico de corte e costura consegue produzir uma máscara, mas em escala não. Não estamos prontos para produzir em larga escala nem algo tão simples.

Isso certamente será repensado. Países como os EUA acordaram e sentiram na pele o risco que é depender de terceiros para poder fazer testes para identificar um vírus, ou para municiar a sua rede de saúde, de aparelhos e EPIs necessários para enfrentar uma pandemia.

Essa lição terá impacto no Just in Time provido por uma azeitada cadeia de suprimentos global.

Outra coisa que eu estranho muito é por que não estamos em um esforço de guerra? Em tempos de guerra governos interferem em suas economias com o que for necessário e suficiente para enfrentar o desafio.

Lembro de um diretor do armador Hamburg Sud me contar que na segunda guerra mundial, o governo alemão requisitou 100% da frota de navios da empresa para uso militar. E a empresa sobreviveu a isso. Um armador sem navios. Esse é um exemplo simples do alcance do poder que um governo pode ter em tempos de emergência.

Outra coisa comum é adaptar todas as indústrias à premente necessidade nacional. Você fazia geladeiras, agora tem que fazer bombas, tanques e o que mais for necessário. O governo aprova leis que permitem a interferência em ativos de terceiros para que estes atendam demandas inadiáveis.

Não precisamos chegar a tanto. Basta usar a melhor ferramenta disponível no capitalismo: l’argent, money, dinheiro.

Por que a indústria têxtil nacional não foi mobilizada para produzir máscaras é algo que foge à minha compreensão. O que vimos até aqui foram iniciativas isoladas de empresas que resolveram alterar a sua linha para doar algo que não produzem, como álcool gel.

A gestão para canalizar as competências existentes e buscar soluções nas empresas de forma coordenada para suprir no mercado nacional o que for possível, é algo que já deveria ter sido feito. Temos no Brasil montadoras, sabemos produzir armamentos sofisticados, carros e aviões, certamente temos competência técnica para fazer um respirador. Essas indústrias deveriam estar em regime 24x7 produzindo, ao invés de ficarmos esperando a boa vontade de fornecedores estrangeiros.

Um exemplo do que pode ser gerado nesse tipo de esforço é o movimento StartupsVsCovid19. Um grupo resolveu mapear todas as startups que tenham produtos e soluções que possam ajudar no combate a COVID. Em pouco tempo mais de 20 empresas foram cadastradas e engajadas num esforço em rede para apoiar esta importante causa. Para saber mais acesse startupsvscovid19.com.

Temos muita competência e parque instalado disponível. Se o mercado em ações isoladas consegue gerar esse tipo de resposta, imagine se isso for coordenado e gerenciado. Uma pena que esta oportunidade esteja sendo perdida.

Talvez o seu próximo iPhone ainda seja feito na China, mas veremos as indústrias nacionais voltarem a fazer tudo o que for considerado básico ou estratégico. Não dá para depender de um único país. Essa lição ficou muito clara, resta ver quem agirá a respeito.

 

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

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4 Comentarios
  • ERICK DOMINGUES - 12/05/2020
    Eu li em um artigo sobre Compliance a algumas semanas que o "MADE IN CHINA" estava sendo substituído pelo "MADE IN SOMEWHERE ELSE". Essa mudança já estava ocorrendo a algum tempo desde que as tensões entre os USA e a China começaram entretanto devido a falta de transparência do governo Chines e a postura de aumentar os preços já negociados para se aproveitarem economicamente dessa situação especificamente no caso do COVID 19 está acelerando esse processo.
  • DANIEL DE MELLO OLIVEIRA - 12/05/2020
    Nuno, concordo completamente! Quando digo que o governo deveria ter me posições de liderança um quadro de especialista, isto aplica as áreas técnicas, administrativas e estratégicas. Algo que ainda veremos no Brasil, com certeza...
  • Mauricio Ponte Rodrigues - 12/05/2020
    Nuno, Seu artigo fez refletir o quanto é importante a gestão e aquisições contratuais na cadeia de suprimentos. Uma empresa pode ficar vulnerável, quando adota um fornecedor, em que, por outras forças passa atendê-lo com exclusividade. Ainda que haja respaldo legal, o contratante pode se tornar refém, solidário e subsidiário ao contratado.
  • Mateus Machado - 13/05/2020
    Perfeito!