A Moto

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por

Nuno Figueiredo

29 de dez de 2020

· 4 min de leitura

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Cansado de tudo, o sujeito subiu na moto e foi embora. Pegou a estrada, sumiu. Largou tudo: emprego, mulher e um filho pequeno. Abandonou, desistiu da sua vida, de seus problemas e simplesmente partiu. Voltou 20 anos depois para ver o que restou da cidade, dos amigos e da família que ele deixou para trás há tanto tempo. Esta é a sinopse de um filme que eu assisti há alguns anos. O filme não era um cult, e eu não consigo nem me lembrar do nome do mesmo.

Mas de alguma forma eu fiquei com essa imagem gravada, de um sujeito que num ato de desespero e irresponsabilidade, pega a moto e cai na estrada. Adotei essa ideia como uma válvula de escape. Quando a situação complica, quando tenho um revés maior ou um dia mais difícil, brinco dizendo que vou comprar uma moto.

O cinema fez um bom trabalho colocando a moto como um símbolo de liberdade, um ideal de vida. Que o diga a Harley Davidson, que alega não vender um veículo e sim um estilo de vida. Não é muito justo associar a moto com a irresponsabilidade de largar tudo e eu reconheço que você não precisa de uma moto para mandar tudo para o inferno, mas esse ícone torna esse pensamento mais forte.

Todo mundo passa por isso e tem aqueles segundos de raiva em que você quer matar o sujeito que te fechou no trânsito ou o chefe ou cônjuge. Sair da realidade por pequenos instantes antes de respirar fundo. Breves instantes em que gostaríamos de dar uma de Michael Douglas, no filme "Um dia de fúria", onde ele pega uma arma e sai atirando contra tudo e contra todos.

Todo mundo tem dias bons e dias ruins. Fases boas e outras nem tanto. Todos estamos sujeitos a períodos difíceis, de vacas magras, de perda de pessoas queridas. Isso é cíclico e faz parte da vida. Não dá para ser feliz o tempo todo e na verdade mal sabemos definir o que vem a ser a felicidade.

O Flávio Gikovate tem uma definição boa de felicidade. Ele divide o nosso caminho como se fosse uma folha com um grande risco vertical que divide o papel em duas partes. No centro está a paz. Na esquerda está a tristeza e a dor, e na direita está a alegria e o prazer. E nós oscilamos como num ecocardiograma, ora para a esquerda, ora para a direita, ora no centro. Segundo o Gikovate pode se considerar feliz quem se mantém a maior parte do tempo no centro. Normalmente esta pessoa se recupera mais rápido de uma perda ou de uma tragédia.

Existem dois tipos de prazer: o bom e o ruim. O bom todo mundo sabe reconhecer e o ruim é aquele que você tem quando para de sofrer, quando se recupera de uma doença, por exemplo, mas ele é ruim porque para ele ocorrer você tem que ter tido algum problema. Mais estranho é o conceito de que a felicidade não está em ter momentos agradáveis e faz sentido que assim o seja, porque estes momentos são raros e depender deles para se sentir bem o torna uma pessoa frustrada e, portanto, na maior parte do tempo, infeliz.

O interessante deste conceito do Gikovate é a consciência de que a tranquilidade, a paz e a serenidade é que nos colocam no centro e nos permitem sentir que mesmo oscilando, sejamos, na maior parte do tempo, felizes se conseguirmos fugir dos extremos.

Nós temos que conviver com isso. Mesmo que você ame o que você faz e seja o sujeito mais animado do mundo, ainda assim haverá semanas em que rezaremos para que chegue a sexta-feira, e teremos momentos em que queremos fazer como o Brad Pitt, no filme "O Curioso Caso de Benjamim Button", onde ele achou que o melhor a fazer era sumir e ir embora. E adivinhe o que ele fez? Subiu na moto e pegou a estrada.

 

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

Foto: Drew Coffman

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Ultimos comentários

Juliano Alba

Muito bacana e faz refletir muito. Parabéns pela matéria.

Wanderley Moreno

Parabens pela reflexão. Grandes filmes e grande lição de vida! A analogia da folha foi incrivel! Obrigado pelo texto. Um abraço!!!!

Suélio

Parabéns pelo texto! Uma boa reflexão para nossa vida.

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