Retire-se Daqui!

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Nuno Figueiredo

05 de mai de 2021

· 6 min de leitura

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A primeira vez que você é expulso de uma empresa você nunca esquece. Ainda que este fato tenho ocorrido há mais de 10 anos.

Fui visitar um transportador no interior de SP. Após uma viagem de carro por cerca de duas horas cheguei na empresa onde era aguardado pelo responsável pela área de TI. Já tinha feito um contato por telefone, e ele me disse que tinham um sistema interno muito simples e ele gostaria de conhecer um TMS mais parrudo.

Como o nosso gerente comercial não tinha agenda resolvi assumir aquela visita. Entrei na empresa num amplo salão, onde cerca de 30 pessoas estavam dividas em baias. Numa delas estava o cara da TI, que era novo, tinha uns vinte e poucos anos, mas já estava na empresa há cerca de dois anos.

Logo na entrada topei com um senhor em pé que me perguntou com quem eu queria falar. Ele tinha uns 50 anos e cara de poucos amigos. Ele me direcionou para o cara de TI, mas ficou por perto escutando a conversa.

Eu perguntei se faríamos a conversa ali mesmo na mesa dele e assim que ele confirmou, fui ligando o notebook e me preparando para iniciar a apresentação. Não cheguei a fazê-lo. Descobri que o senhor em questão era o dono da transportadora. Quando ele entendeu quem eu era e o que iria fazer ali chamou o rapaz num canto para uma conversa a dois. Na verdade, eles ficaram a poucos metros de onde eu estava e como o dono gritava, eu e o resto do salão escutamos o infeliz do TI levar um sabão.

Ele ficou muito incomodado de ter sido agendada a reunião sem a permissão dele. Disse que não precisava de outro sistema, que isso não importa nada para o negócio entre outros impropérios que não são divulgáveis. Assim que ele terminou com o infeliz foi a minha vez; eu já tinha a certeza naquele momento que tinha perdido a viagem e o meu tempo, ainda assim ele soube superar as minhas expectativas.

Consigo reviver a cena como se fosse ontem. Com toda a má vontade do mundo ele me disse: “Por favor, retire-se daqui”. Pelo menos ele não berrou comigo. Comecei a desligar o notebook. Para suavizar um pouco o tratamento ele ainda resolveu me dar uma satisfação: “já conheço a Signa, isso que vocês fazem é bom lá para a Júlio Simões. Não tenho tempo nem dinheiro para perder com isso aqui". E reiterou o convite para que eu fosse embora. Desta vez pedi somente o tempo de desligar a máquina, informei que já iria sair. E em menos de 5 minutos estava fora da empresa, num calor de rachar, típico do interior paulista.

Demorei uns minutos para entrar no carro, tentando entender aquela cena surreal. Fui literalmente expulso de uma empresa sem ter dado nenhum motivo para um tratamento tão descortês.

Fiquei com aquela sensação daquele personagem que só reage 10 minutos depois com n falas do que poderia ter dito e não disse. Gostaria de ter dito que uma empresa que possui uma frota de cerca de 150 veículos precisa e muito de uma boa solução. Gostaria de ter dito que a Júlio Simões, atual JSL, não se tornou uma empresa daquele porte por acaso e que ela sabe o valor de investir em ferramentas e inovação. O que resta desse episódio é a experiência de como alguns transportadores ainda enxergam o seu negócio e o seu mercado. Esse tipo de empresário faz transporte, não faz logística.

Nas duas pontas de uma régua estão o transportador e o Operador Logístico. O primeiro tem uma estrutura pesada baseada em ativos, os veículos. A sua oferta está fortemente baseada no tamanho da sua frota.

Na extremidade oposta está o Operador Logístico que não investe em ativos. No seu conceito mais puro ele não tem frota, subcontrata o que precisa para atender os seus clientes. A sua oferta está baseada em inteligência e não há limite para o que pode vender.

Entre essas duas extremidades há composições híbridas. Temos o Operador Logístico que possui frota própria e atende uma parte de sua demanda por meio de seus próprios ativos e temos transportadores que estenderam o seu raio de atuação com parceiros e tem alguns negócios onde atuam como se fossem um Operador Logístico.

E tem o “me engana”. Aquele transportador que só faz transporte e escreve na logomarca da empresa Operador Logístico, como se essa questão fosse um problema de marketing.

O meu amigo nesta história, infelizmente verídica, nunca será um Operador Logístico. Ele não tem a visão e a mentalidade para virar a sua empresa nessa direção.

A priori não é necessário que um transportador vire um Operador Logístico. Não há nada de errado em ser um transportador puro. Tem empresários que tem um foco único, entendem que o nicho deles é fazer o transporte puro e podem ser excelentes naquilo que fazem, e podem complementar a operação de um operador logístico ou até atenderem diretamente clientes que ainda não foram empurrados, pelo mercado, no sentido de que a informação não é apenas um complemento para o transporte. Se isso é uma decisão estratégica e consciente não é um erro. Ainda assim cabe a consciência sobre o papel que exerce e o que poderia fazer. Se isto está contemplado ok, caso contrário, a briga é cruel, contra margens cada vez mais enxutas e não raro operando no prejuízo direto ou indireto.

Resolvi abrir uma conversa a respeito. Das diferenças e atitudes necessárias para ir do transporte à operação logística. E quando usar a frota própria for imprescindível vamos pontuar quais os melhores caminhos para fazer isso dar o melhor resultado.

Este é o tema que vamos discorrer nas próximas News. Sugestões e dúvidas são bem-vindas, procuraremos contemplar os temas que forem mais interessantes e abrangentes.

Foto: Freepik

 

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

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Ótimo.