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O Dilema do Inovador

Vamos aprofundar a análise iniciada no último post a respeito do “Dilema do Inovador“, que basicamente é o desafio do líder de se perguntar quando é a hora de parar de ordenhar a vaca que nos dá o leite atualmente.

Um dos problemas quando tratamos de futuro é que para a maioria isso está longe, alguns acham até que a coisa só chegará quando ele já estiver aposentado. Nós já exploramos que o futuro imaginado já é presente em muitos casos no post “Esse é o futuro, mas de que ano estamos falando?”. Vamos analisar novos exemplos sob o ponto de vista do dilema em alguns cenários diferentes.

A primeira coisa que me chama a atenção é que a chegada da Amazon no Brasil, com o seu CD em Cajamar, não trouxe junto a tecnologia de ponta que vemos da própria empresa neste vídeo. No filme que a empresa lançou sobre o CD em Cajamar, vemos empilhadeiras sendo dirigidas por humanos, que também fazem o picking. Pelo menos por enquanto, o armazém do futuro ainda não chegou aqui.

Nas minhas férias de fim de ano estive em Miami-EUA, e procurei no cotidiano diferenças entre nós e eles. Existem as que não são novidade. Lá, assim como na Europa, há vários anos você mesmo abastece o seu carro. Não há frentista.

Nos supermercados que visitei não vi diferença. Há o velho e bom caixa com um atendente humano que passa as suas compras e faz a cobrança.

Em um hotel que fiquei notei a preocupação de usarem menos pessoas com algumas táticas que não tem nada de tecnológicas; por exemplo, todos os utensílios do café da manhã eram descartáveis. Menos gente para lavar a louça ou por a mesma numa máquina de lavar.

O pedágio nas estradas que saem de Miami não existe, ou melhor, ele existe, mas o processo é automático pela leitura da placa dos veículos. O seu carro já deve ter previamente contratado o pagamento do pedágio. Isto é ofertado como opcional quando você aluga o carro, mas, na verdade, não há escolha, porque não existe como pagar manualmente o pedágio. Não há cancelas, nem gente. Você simplesmente dirige e automaticamente o pedágio ou uma multa são aplicados.

Por aqui pipocam as soluções do tipo “Sem Parar”, que te obrigam a reduzir a velocidade a 40 Km/h e ainda levanta uma cancela. Temos ainda cabines com gente dentro permitindo o pagamento manual.

Por que esses casos ocorrem? Acredito que a resposta está no custo da mão de obra. Para viabilizar o negócio não pode haver o luxo de se colocar gente. E note que nem sempre a solução dada envolve tecnologia. Neste ponto nem todos enxergam a necessidade de resolver o problema da melhor forma.

Voltando ao hotel, esse é um negócio em franca evolução. Não estou nem falando da disrupção causada pelo Airbnb, que transformou esse mercado, e sim do velho hotel como todos conhecemos. Na China, o Alibaba abriu no mês passado ao público um hotel mais automatizado que visa reduzir significativamente o custo e oferecer melhores serviços.

E como se melhora o serviço, reduzindo o custo? A única forma que eu conheço é inovando e inserindo tecnologia. Neste hotel eles usam extensamente robôs para eliminar pessoas e prestar serviços com mais eficiência. Tecnologias como o reconhecimento facial facilitam a vida do hóspede e lhe dá mais segurança. O seu rosto abre a porta do quarto ou é o que precisa para você sozinho fazer o seu checkout.

Nas palavras de Andy Wang, executivo chefe do Alibaba Future Hotel Management:

"A questão é a eficiência e a uniformidade do serviço, porque os robôs não se perturbam com o humor dos humanos. Às vezes, dizemos que não estamos a fim, mas o sistema e o robô sempre estarão a fim"

Você pode ler neste link a matéria completa a respeito. Este hotel ainda tem humanos trabalhando, mas o caminho sem volta já foi iniciado.

Inovar implica em correr riscos e errar. No mesmo setor vemos o caso do hotel Japonês Henn-na que demitiu os robôs porque estes estavam incomodando os clientes. No pior caso, o sistema de reconhecimento de voz confundia o ronco do hóspede como um comando a ser obedecido e saia falando e acordando o infeliz. Este hotel no Japão é de 2015!

Eles não demitiram todos os robôs, somente a metade. De acordo com a gerência do hotel:

A ideia não é se livrar por completo dos robôs, mas adaptar os que ainda são "funcionários" a funções mais básicas.

Você pode ler este caso da Henn-na neste link.

Não conheço nenhum hotel no Brasil que esteja indo nesta direção. Será que eles ignoram a mudança no cenário ou estão muito ocupados ordenhando a vaca que supre o leite atualmente?

Por mais que algumas experiências deem errado e precisem de alterações, o rumo inevitável será entrarmos e sairmos de um hotel tendo pouco ou nenhum contato com um ser humano.

O Dilema do Inovador é do líder, das pessoas que tem a responsabilidade de dar os rumos que o negócio deverá tomar. Porém nem todos que ocupam cargos de direção estão à vontade para enfrentar estes desafios.

O Ayodeji Awosika dá uma contribuição importante a respeito na sua palestra no TEDx,: “O futuro pertence aos impostores”. Ele comenta que algumas pessoas não se sentem completamente preparadas para assumir alguma tarefa e sentem como se fosse uma fraude, um impostor que está em vias de ser descoberto.

Nas palavras do Awosika:

“The incentives were playing it safe are slowly slipping away; many safe and stable industries are either gone or on their way out the door”

(Numa tradução livre: Os incentivos que existiam para algo seguro estão lentamente se esvaindo e muitas indústrias seguras e estáveis ou se foram ou estão a caminho do fim). Você pode ver esta palestra neste vídeo (em inglês).

Ou seja, ele diz que não há gente suficiente e com o preparo completo para os novos desafios. O medo pode fazer você preferir não atuar nisso, permanecer onde você já conhece, domina e se sente seguro. O problema é que o maior risco que há atualmente está em não correr nenhum risco e continuar ordenhando a vaca.

Ou repetindo as palavras do Adriano Silva, que já publicamos no post anterior:

“Você olha para o horizonte e vê o céu virar. Mas a tempestade ainda está longe. Você continua trabalhando, fazendo o que vinha fazendo, o que tem de fazer, o que sabe fazer”.

Se você não se sente capacitado, ou ainda se você já sabe que precisa correr, mas não tem ideia de para onde ir, você não está só. Uma saída é pedir ajuda antes que a vaca vá pro brejo (não resisti a fazer um trocadilho). É o que está fazendo a Walgreens, uma das maiores cadeias de drogarias dos EUA. Eles viram a Amazon comprar a PillPack, uma startup que quer revolucionar as farmácias. Eles viram que o leite atual vai secar e chamaram a Microsoft para ajuda-los a ir para a farmácia do futuro. Você pode ver mais detalhes neste link. O post também possui um link que acessa um filme explicando o que faz a PillPack, o filme é muito interessante, se você quiser ir direto a ele clique aqui.

Você já sabe, a Signa é especializada em TMS. Se este for o seu problema para inovar, nós podermos te ajudar, entre em contato!

Voltando à Amazon (eles de novo!), a empresa também já apresentou o supermercado do futuro. Você pode ler a respeito neste link; porque as maiores cadeias de supermercado nos EUA ou aqui ainda não se mexeram em relação a isto? A resposta é o “Dilema do Inovador“.

Não ter tempo para refletir a respeito pode ser o início do fim. A charge abaixo exprime bem o meu “achismo” a respeito da falta de tempo.

O Dilema do Inovador

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

Foto: CNN

 

1 Comentarios
  • Carlos Macedo - 29/01/2019
    Excelente texto. Parabéns.