Transporte

Quem ganha e quem perde com a tabela de frete

10/07/2018

A tabela de frete mínimo sancionada pelo governo tem durado mais que o previsto. A tabela tem a fragilidade e os erro normais que se cometem quando se faz algo de forma apressada e sob pressão. E a sua esperada revisão não veio e parece que não virá, pelo menos neste ano.

O fato é que ela está implantada e vigente há mais de 30 dias. Quem ganha e quem perde com isso é o que vamos analisar nesta News.

Noutro artigo já comentamos que essa tabela tem alguns problemas básicos. Entre outros problemas essa tabela paga o mesmo preço independente do tipo de produto transportado.

É cedo para avaliarmos todos os impactos deste novo cenário. Parece que a esperada revisão não virá no curto prazo. Temos um governo enfraquecido e em fim de mandato. O binômio Copa do Mundo e Eleições também não indica que o congresso vá se mexer com muito afinco. No mínimo, a eventual revisão já foi para fim de agosto, mas tudo indica que possíveis ajustes fiquem para ser feitos em 2019 e, como você já bem sabe, isso é para depois do carnaval.

Até lá a tabela estará vigente. E já está gerando impactos. No curto prazo não esperamos alterações significativas, porque as mudanças que podem ser feitas têm impactos de médio e longo prazo e requerem investimentos. Não se faz isso a toque de caixa, assim como não se altera uma estratégia logística sem ter certeza se o cenário está consolidado ou se isso é temporário.

Ouvi de um grande transportador, esta semana, que ele tem perdido algumas rotas para concorrentes que operam frota própria nesses trechos onde ele utilizava autônomos. Ele está se preparando para adquirir mais veículos, aumentando a sua já robusta frota própria. Segundo este empresário, pelo preço da tabela mínima compensa ele colocar seus próprios ativos.

Os últimos anos foram ruins para a economia. Com o desaquecimento da atividade, o transporte diminui como reflexo direto da queda na produção. Muitos empresários colocaram pijama em parte de sua frota pela retração do mercado. Este cenário, portanto, é bom para quem tem frota própria ociosa. Com pouco investimento é possível colocar para rodar os veículos antes encostados, e se alguém está perdendo rotas, é porque outro ocupou esse espaço. O primeiro round privilegia quem já investiu em frota e tem ociosidade.

O Embarcador que opera com frota própria também ganhou neste momento. Ele se beneficia de um valor do diesel mais controlado e não foi obrigado a pagar mais caro pelo frete. Algo estranho e na contramão do modelo mais eficiente, mas não será a única distorção logística que temos notícia.

A busca de alternativas ao aumento do custo privilegia outros modais. A ferrovia e a cabotagem são modais que tendem a ter mais procura. Dependendo do produto transportado é mais rápido fazer esta opção, mas não raro, usar outros modais que exigem carga mais consolidada não é tão simples. Requer planejamento para a mudança ser significativa, portanto, estes modais estão sendo mais procurados, mas é cedo para que isto seja ainda impactante. Tende a se tornar mais acentuado quando os embarcadores se prepararem melhor para estas opções.

Isto tende a ser um caminho sem volta. É muito racional o uso de outro modal, como a cabotagem, em longas distâncias. Uma vez que isto fique claro para alguns novos entrantes, duvido que voltem à situação anterior.

Quem perde num primeiro momento são os Embarcadores, que são obrigados, por força de lei, a aumentarem os seus custos. No mínimo estão aumentando o seu risco de processos e multas nos casos onde resolveram não acatar.

Confirmado que a tabela vigore por um tempo maior, as montadoras vão agradecer o aumento de procura para a compra de veículos, assim como o mercado de usados deve sentir algum aquecimento.

Os Operadores Logísticos e Embarcadores devem continuar perdendo neste novo cenário. Um alongamento deste quadro pode gerar uma revisão de estratégia. Até lá os autônomos incialmente estarão tendo melhoria em sua receita. A tendência não é promissora, mantido o quadro haverá mais frota própria rodando e muitos autônomos, por falta de demanda, devem abandonar o sonho do empreendedorismo e alguns vão migrar para serem motoristas contratados de uma Transportadora, Operador Logístico ou Embarcador.

Sempre foi importante analisar e gerenciar a frota própria como uma unidade de negócio. Nós demos dicas a respeito nesta News bem como a preocupação que o sistema TMS deveria ter para quem precisa gerenciar frota própria nesta outra News.

A decisão de usar Frota Própria não pode ser algo tempestivo. O aumento do percentual de uso de ativos próprios gera efeitos colaterais de médio e longo prazo quando feitos sem o devido controle. No longo prazo, se a economia não reagir, no final todos perdem.

 

Nuno Figueiredo

Diretor Comercial
Signa Consultoria e Sistemas

 

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