Quando a inovação trabalha contra você

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Nuno Figueiredo

14 de jul de 2021

· 6 min de leitura

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Existem inovações que estão à frente de seu tempo, e não vingam, ou demoram muitos anos após o seu lançamento para vingar. Um bom exemplo é o teto solar nos carros. Lançado na Europa nos anos 50, quando chegou no Brasil em 1965, o fusca com teto solar logo foi apelidado de “CornoWagen”.

Esta história de como o fusca de teto solar virou o carro do corno você pode ler neste link .

Hoje o carro com teto solar é uma realidade. Ninguém mais olha para isso como algo pejorativo, logo, esta tecnologia se tornou viável por aqui.

Existem inovações que são incríveis, porém inoportunas no contexto onde elas estão inseridas. Apesar de muito boa, uma inovação pode ser voltar contra o usuário, e causar graves problemas. Aí temos o “quase ótimo, porém péssimo.”.

Um bom exemplo deste segundo tipo é o PIX. A inovação do governo que permite transferências on line, sem custo, a qualquer dia, a qualquer hora, 24 x 7, nos 365 dias do ano. À primeira vista parece uma maravilha, e é.

Extremamente prático, o PIX tende a tornar inútil a necessidade de maquinas de cartão de crédito, tudo é feito de forma instantânea e segura, no seu celular. Esta inovação significa uma revolução no setor financeiro. Como toda boa revolução, ela ainda nem começou a arranhar a sua potencialidade.

O PIX pode ter um ponto de virada no mercado financeiro, e ser um ponto de virada para que Fintechs e OutrasTech da vida possam operar transações financeiras de forma rápida e segura.

E cabe frisar: Não sou contra esta inovação. Como tudo que é novo, pode ser aperfeiçoado, a questão é o impacto que pode gerar até que isso ocorra.

O problema é a sociedade em que vivemos, ou seja, onde essa tecnologia será utilizada. O princípio básico de qualquer transação financeira é a segurança. Não digo que o PIX não seja seguro, muito pelo contrário, tecnologicamente falando, ele é, mas o meu ponto é que ninguém mais está seguro depois disso.

Inicio com uma pergunta: Se todo o dinheiro que você possui coubesse dentro de uma mochila, você andaria tranquilamente por aí com ela? Eu não. Principalmente a noite, nos fins de semana, e dependendo de onde eu fosse, certamente não.

Pois é, há muito tempo andamos por aí com o nosso dinheiro todo na mão, a gente só não percebe isso, ou não avalia direito os riscos.

Estava tomando um bom vinho com um amigo, quando ele me perguntou se eu também recebia mensagens SMS sempre que algum gasto no cartão de crédito era feito. Eu confirmei que sim, tanto no de crédito, quanto no de débito. Como ele estava incomodado com isso, perguntei qual era o problema.

A mensagem que eu recebo é deste tipo:

Compra aprovada no seu NOME DO CARTÂO final XXXX- LANCHES FRANCISCO valor RS 28,68 em 08/07, as 08h17.

A que ele recebia era:

Compra aprovada no seu NOME DO CARTÂO final XXXX- LANCHES FRANCISCO valor RS 28,68 em 08/07, as 08h17. O Saldo da sua conta é de R$ YYY.XXX,ZZ.

Aí não dá. Ao invés do banco de ajudar a identificar uma possível fraude, ele coloca no teu celular a informação aberta e disponível no SMS de quanto você tem na conta. Um prato cheio para um ladrão. Fica a dica: Se teu app de banco permite consulta e acesso aos teus investimentos, você está correndo um grande risco. Se possível for, desabilite, caso contrário repense.

E este é o grande problema do PIX. Não pensaram nos ladrões e no meio onde vivemos.

Em cidades grandes como São Paulo, há pouco tempo atrás o crime da moda era a saidinha de banco. Alguém dentro do banco notava que você tinha sacado muito dinheiro e avisava alguém lá fora, que te seguia e te roubava.

Isso ficou tão comum que os bancos proibiram o uso de celulares dentro das agências e tiraram a visibilidade do caixa. Você, na fila, não vê quem está no caixa, se está pagando conta ou sacando dinheiro.

Com menor incidência tínhamos também o sequestro relâmpago. Alguém te sequestra e te leva a passear pela cidade visitando caixas eletrônicos que ficam em lugares menos movimentados, e você, sem opção vai fazendo saques para os bandidos.

Novamente, dada a incidência grande de casos, os bancos limitaram o valor que pode ser sacado a noite e nos fins de semana, que são os períodos onde isso mais ocorria. Mesmo durante o dia, há limite de quanto você consegue sacar no mesmo dia.

Agora está mais fácil para os bandidos. Eles só precisam roubar o teu celular. Está crescendo assustadoramente as notícias de pessoas que em seguida ao roubo do celular, tiveram a sua conta corrente saqueada.

Eu ia até colocar um link, mas digita no Google “roubo celular conta corrente” e você vai ver quantas notícias existem. O mercado paga mais por um celular desbloqueado, mas já há casos de roubo de valores da conta, mesmo com o celular bloqueado.

Olha só a manchete desta reportagem da folha:

'Consigo desbloquear todos os modelos de iPhone', diz criminoso que invade contas bancárias

Você pode ler esta noticia da folha neste link .

Preocupado com isso perguntei para a minha gerente como posso colocar um limite no uso do PIX. A resposta é de doer, você pode fazer isso direto no APP. Bom se eu posso fazer isso no APP, quem conseguir acesso também pode. No caso de um sequestro, por exemplo, você certamente está com o seu celular e vai aumentar o limite, que pode nesse banco, chegar até trezentos mil reais.

Esse tipo de trava deveria ser feito pelo gerente. No limite, a função deveria estar disponível somente no acesso pelo computador. O fato é que estamos sempre com o celular, logo não é seguro que possamos fazer qualquer coisa a partir dele, sem restrições, porque um evento único que seja, pode ser devastador.

E as normas de segurança estão indo na contramão disso. Quase todo o controle e bloqueio / desbloqueio está sendo direcionado para o celular. Isso, pelo menos por aqui, não é seguro, a ponto de ser muito questionável se devemos mesmo usar APPs de banco no celular.

Como não dá mais para viver sem isso, uma solução de contorno possível, é ter no computador da sua casa o Home Bank da sua conta principal, e ter no celular o app de uma segunda conta, em outro banco, que você use para pequenas despesas do dia a dia. Não é o ideal, mas é o mais seguro no momento, até que os bancos permitam maior controle sobre essa novidade.

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

 

Foto: Freepik

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Ultimos comentários

Jorge Abussafy

Ótimo post, e agora devemos também tomar cuidado com uma nova Inovação, a da "Por aproximação". Os meliantes já descobriram que, se tiver uma maquininha e ele estabelecer contato com o Usuário que está dentro de um estabelecimento, fazem o débito "Por aproximação" sem que ele perceba. Os meliantes tem uma "Inovação" muito rápida, mais rápida até que a própria Inovação.

Hélio

Muito preocupante!!