Trabalharei mais ainda!

A relação entre trabalhar duro e trabalhar demais é tênue. Para alguns isto é uma escolha. Até aí, no limite, cada um sabe de si e de suas escolhas.

O bilionário chinês Jack Ma, fundador do Alibaba, encoraja os recursos da área de tecnologia a adotarem uma cultura de horas extras e de uma jornada diária expandida.

As empresas chinesas cunharam um termo para isso: a cultura “996”. Nessa cultura você trabalha das nove da manhã até as nove da noite, seis dias por semana.

Os programadores chineses lançaram no GitHub uma bem-humorada resposta chamada “996.ICU”, onde ICU equivale a nossa UTI (Unidade de Terapia Intensiva), escrito em inglês. Como diz a imagem abaixo, que eu extraí do GitHub:

“Seguindo o “996” você está se arriscando a ir para a UTI”

“Seguindo o “996” você está se arriscando a ir para a UTI”

Outro bilionário chinês, o Richard Liu, fundador da JD.com, acha que quem critica a “996” é preguiçoso. Ele mesmo cumpre uma jornada de “8116”, ou seja, ele trabalha das oito da manhã, até as onze da noite, seis dias por semana.

No Japão já há um termo para esse extremo: Karoshi, que significa morte por excesso de trabalho. As principais causas médicas do Karoshi, segundo a Wikipédia, são: ataque do coração e derrame devido a estresse.

Bom, eu sou um ex-Workaholic. Já fiz jornadas das 8 da manha até as 11 da noite, exceto de sexta a domingo, onde encerrávamos o expediente mais cedo, lá pelas 18 hs. Não recomendo para ninguém.

As vezes é necessário dar um gás. As vezes é necessário fazer um esforço concentrado. O problema é que isto funciona, mas é parecido com o antibiótico, se usado em excesso, perde o efeito.

Outro efeito colateral é que, usado de forma prolongada, ao invés de ajudar, piora. O cansaço e o stress do excesso acumulado culminam em uma produtividade decrescente. Quanto mais você trabalha, menos você produz. Vai chegar o dia que uma jornada de 12 a 14 horas diárias são necessárias para fazer algo que você faria em 8 horas, se não estivesse tão exaurido.

Esta atitude vira glamour. Basta um ícone como exemplo e um monte de gente vai seguir. Eu lia as histórias de como Bill Gates construiu a Microsoft. Ele chegou a ter um colchão em seu escritório para cochilar algumas horas e não precisar sair. Não raro, dormia em cima do teclado. Num artigo publicado no New York Times, ele anunciava que se você quer encarar o mundo da programação, prepare-se para longas noites regadas a coca cola, café e pizza.

Muita coisa saudável junto, não é?

Pois é, esse foi o meu modelo, a minha inspiração. Não me admiro hoje, que eu encarei esse tipo de jornada. Não estou falando de dias, foram anos.

Como o exemplo do Bill Gates demonstra, este fenômeno não se restringe à Ásia. As startups também não escaparam de entrar nessa cultura do “Trabalharei mais ainda”.

O Twitter do Elon Musk é autoexplicativo.

“Há lugares mais fáceis de trabalhar, mas ninguém mudou o mundo em 40 horas por semana”

“Há lugares mais fáceis de trabalhar, mas ninguém mudou o mundo em 40 horas por semana”.

Esse Tweet foi uma resposta a um reply do Wall Street Journal, a respeito das exigências das empresas de Musk sobre os seus colaboradores, em cima de um post onde Musk divulgava as suas empresas para interessados em fazer carreira.

E ele ainda enfatizou:

“Mas se você ama o que você faz, (na maior parte) não o sente como trabalho”

“Mas se você ama o que você faz, (na maior parte) não o sente como trabalho”.

É isso. Você ama o que você faz e pode se fartar de trabalhar, porque aí não é mais trabalho. O Elon Musk trabalha em jornadas de 120 horas por semana. Se você achou muito, a ex-executiva do Google, Marissa Mayer, trabalha 130 horas por semana. E ela já afirmou:

“Trabalhar 130 horas por semana é o que criou o Google”.

Para essa cultura o recado é claro: “no pain, no gain” (sem dor, sem ganho).

Quando estamos falando dos líderes, eles têm escolha e eles criam a cultura. Quem vem embaixo não é que não tenha escolha, no limite você escolhe trabalhar ou não em uma determinada empresa, mas tem menos opções.

Eu amo o que faço, mas continuo não recomendando essa insanidade como modo de vida. Eu aprendi que menos gera mais resultado. Que o dia tem que caber no dia, ou há algo a ser revisto.

É isso, ou você vira o cavalo do livro “A revolução dos bichos”, o Sansão, que a cada momento repetia seu mantra:

“Trabalharei mais ainda!”

O Sansão não teve um final feliz. Acho que um fator importante é quem escolhemos como modelo para seguir. Um mau exemplo será desastroso.

Vivemos em um mundo obcecado por velocidade. As coisas tem que ser feitas cada vez mais rapidamente. Time is Money! Já falamos a respeito disso há alguns anos no post “Tempos Velozes”.

Temos que fazer cada vez mais em cada vez menos tempo. Isso provoca uma grande ansiedade, muita frustração e adivinhe: muitas horas extras.

Parece que estamos sempre correndo contra o relógio, numa corrida que simplesmente não temos como ganhar. Há muito mais a fazer do que o tempo disponível. Temos que tomar muitas decisões, e rápido! No final das contas, o que importa mais: tomar a decisão de forma mais rápida ou tomar a melhor decisão?

O objetivo do jogo não é ser o mais rápido e sim obter o melhor resultado. O resultado mais saudável é aquele que gera mais rentabilidade, consumindo um número menor de recursos. E sim, tempo é dinheiro, logo gastar mais tempo para chegar no mesmo resultado é, por definição, ruim.

Nada substitui o resultado. Já abordamos isso no post “O resultado”. Será por isso que corremos tanto? Acho que no final das contas, trabalhar demais não é o que importa.

No limite você vai receber um elogio pelo esforço, mas deixe de entregar o resultado, e isso não será o suficiente. E você ainda vai se sentir pior, deu tudo o que podia, ralou muito e não teve o reconhecimento.

“O esforço é apreciado, mas somente o resultado serve”

Olhando para trás, acho que essa é a resposta pelos meus tempos de jornada insana. No final, tudo se resume a ansiedade e medo de falhar. Por isso, todo e qualquer esforço parece valer a pena para você, no limite, dizer para si mesmo que deu o seu melhor.

Como diz jornalista Carl Honoré:

“A Noruega, a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia estão no ranking dos 6 países mais competitivos do mundo. As jornadas de trabalho nesses países fariam o cidadão americano médio morrer de inveja.”

Como demonstram os países nórdicos, a produtividade não é diretamente proporcional ao número de horas trabalhadas. Ninguém poderá negar o seu esforço, porém a premissa está quebrada. Mais horas não garantem mais resultado.

 

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

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5 Comentarios
  • Viviane Rosa - 23/04/2019
    Sou da opinião de que, trabalhar com o que ama é o segredo! Porém tudo em excesso faz mal. Precisamos conhecer e respeitar o nosso corpo, só assim teremos uma vida longa e saudável! Parabéns pelo texto!
  • Suélio Pontes - 23/04/2019
    Sem esforço ou comprometimento não há vitórias. Precisamos agir hoje para desfrutar de um futuro tranquilo. Entretanto deve ser estabelecidos limites. O amanhã é uma dúvida, o hoje é o certo. Não abra mão do tempo, das pessoas, da família ou do momento para viver de um sonho. Parabéns pelo texto!!! Muito bom.
  • Denise Tucciarelli - 23/04/2019
    Muito bom! Vale lembrar que os países nórdicos trabalham com o FIB (Felicidade Interna Bruta).
  • Wilson Amorim - 23/04/2019
    Muito interessante Nuno. Ótimo artigo como sempre.! Abraços!
  • Osmair Ferraz - 23/04/2019
    Excelente texto, as pessoas são cada vez mais solitárias e atribuem ao sucesso a responsabilidade pelo seu isolamento, como se a individualidade fosse uma formula para o crescimento e não o resultado da insana competitividade. Quando se alia solidão ao poder temos uma mistura que envenena a alma. Os lideres simplesmente dispõe da vida dos seus subordinados pelo simples fato de não terem uma vida pessoal saudável e não gostarem de "voltar para casa" pois não ha nada la, apenas o vazio, e é o medo desse vazio que faz com que se imponha um ritmo insano para si mesmo e envolvendo as outras pessoas que pagam o preço desse suposto sucesso.