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A necessidade de sempre ter razão

“Imaginem uma grande explosão ao subir a 3 mil pés. Imaginem um avião cheio de fumaça. Imaginem um motor fazendo clack, clack, clack, clack, clack, clack, clack. Parece assustador. Bom, eu estava em um assento especial naquele dia. Meu assento era o 1D. Eu era o único que podia falar com os comissários de bordo. Então eu logo olhei para eles, e eles disseram: "Está tudo bem. Devemos ter atingido um pássaro.”

O piloto alinha o avião com o Rio Hudson. O que não é a rota normal. Ele desliga os motores. Agora imaginem estar em um avião sem barulho. E então ele diz três palavras – as três palavras mais impassíveis que já ouvi. Ele diz:

"Preparar para impacto"

Este é o depoimento de Ric Elias, um dos 155 passageiros do avião cujo acidente é retratado no filme “Sunny, o milagre do Hudson”, que conta esta história real do pouso bem-sucedido no rio Hudson. O piloto é brilhantemente interpretado pelo ator Tom Hanks. É difícil ver um filme ruim do Tom Hanks, e este é acima da média.

Sunny, o milagre do Hudson

O fato e o filme são notórios. Me chama a atenção o depoimento do Ric Elias no TEDx “Três coisas que descobri quando meu avião caiu”, onde ele conta a sua versão da história e como isso mudou a sua vida. Nas palavras dele:

“Já não tento mais estar certo; eu prefiro ser feliz.”

E esta é uma reflexão muito importante nos dias de hoje. Nas redes sociais todos (me incluo nisto) tem uma posição a respeito de quase qualquer assunto. E desaprendemos a debater, a conversar com quem discorda ou que tem uma opinião diferente.

Infelizmente algumas posições se exacerbaram e, o que era para ser diálogo, não raro vira briga, e a consequência direta é o isolamento em grupos que concordam com você. E isso parece que vira uma profissão não remunerada para alguns, que gastam muito tempo e energia postando ofensas ao outro lado.

Como pode haver um diálogo produtivo quando adjetivos como anta, burro, estúpido, imbecil, idiota, ignorante, boçal, entre outros, fazem parte da conversa, em frases do tipo: “Precisa ser uma anta babante para acreditar em...”.

Se o objetivo é convencer a outra parte, o meio usado é péssimo. O outro lado atingido se bloqueia para novos argumentos e só pensa em desconectar o sujeito ou devolver o xingamento. Ambas atitudes reforçam a vida numa bolha, já mencionamos isso no post “Trust me or not”.

A necessidade de sempre ter razão

Ao não conseguirmos conversar, deixamos de aprender. Não escutar o outro lado, significa viver cercado de verdades incontestáveis e deixar de submeter o nosso achismo a outras visões de mundo. No final, deixamos de evoluir.

Vou dar um exemplo de um tema polêmico: o porte de armas. Eu sou contra a flexibilização do porte de armas, não acredito que isso torne alguém mais seguro. Na minha única experiência com um revólver calibre 38, num stand de tiro, eu acertei o para bala que havia no teto para proteger as luminárias de atiradores habilidosos como eu. Não tenho o objetivo de expandir muito o tema, mas apenas deixando uma opinião a respeito, acredito que para alguém comprar e portar uma arma ele teria, no mínimo, que ser bem treinado para o uso eficiente e com segurança.

Para tirar a carta de motorista é necessário curso teórico e prático, além de passar num teste prático. Não deveria ser mais simples que isso portar uma arma. Como afirma o personagem Frank Castle, O Justiceiro, da Marvel:

“Uma arma em si é inútil se não souber como usá-la.”

Já alterei a minha opinião em vários pontos ao participar de discussões a respeito com amigos que pensam exatamente ao contrário, mas foram conversas civilizadas e este é o meu ponto. Quem só quer ter razão escuta para rebater, não para refletir. E se for em mídias sociais, não raro, sem o devido respeito. Se alguém retrucar dizendo algo como “Somente os idiotas dos direitos humanos acham que não se pode ter uma arma...”, bom aí não há muito o que conversar.

Pior ainda quando na pressa de contestar não se dão ao trabalho de ler e entender o que foi dito. Interpretam de forma muito equivocada. Como diz o Jornalista Leonardo Sakamoto:

“Falta amor no mundo e falta interpretação de texto”

Eu concordo com o Sakamoto. Se não tomar cuidado me pego perdendo um tempo e uma energia desnecessária entrando em discussões inócuas. Ainda tenho muito o que aprender com o Ric Elias. Espero que não precise estar num avião em queda para que isso ocorra.

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

Foto: Sully: O Herói do Rio Hudson. Dir Clint Eastwood, 2016

 

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