A Epidemia da Ignorância

“Você tem direito às suas próprias opiniões, mas não aos seus próprios fatos”

Daniel Patrick Moynihan – Senador americano

O que dizer desta reportagem do Mundo Estranho: “Somos controlados por reptilianos”? Segundo uma pesquisa de 2013, 4% dos entrevistados, o que daria uma estatística de 12 milhões de pessoas nos EUA, acreditam que o mundo é controlado por uma raça de alienígenas com aparência de réptil. Os répteis conseguiriam imitar a aparência humana com perfeição. Mas teriam pele de lagarto e olhos com pupilas verticais.

Até onde isso é engraçado e quando isso se torna perigoso?

Você pode ler esse artigo neste link. Essa teoria parece ter saído do seriado “V – A batalha final”. Nele, uma raça de alienígenas visita a terra. Eles vêm em paz e têm mesma aparência dos humanos, mas na verdade são répteis disfarçados e vieram para conquistar o planeta.

De teorias ridículas, ao gosto por teorias da conspiração, parece que hoje vale tudo. De Elvis está vivo a quem matou Kennedy ou se preferir, a “verdade’ por trás da morte de Tancredo, há teorias para todo o gosto, e para todos os credos e crenças.

Algumas são melhor trabalhadas. Algumas são ruins demais, e não param em pé, apesar de terem viralizado e de terem uma legião de seguidores. Mas temos um novo fenômeno, que é a negação da ciência. O direito de opinar sobrepõe a lógica, e que todos vão às favas com os fatos.

Quando a seleção brasileira perdeu a final para a França, a difícil digestão do resultado foi seguida pelas notícias dos bastidores. Veio a teoria que o Brasil vendeu o resultado, num acordo com a FIFA para, em troca, sediar a copa de 2014.

Imagine como é difícil manter uma trama complexa destas em silêncio. Como fazer para que um elenco enorme de jogadores e equipe de apoio não vazem. Ninguém vem a público contar. É tão pouco razoável que não pode ser levado a sério, porém viralizou.

Há fatos que recebem uma contestação mais trabalhada. Por exemplo, há muitos que acreditam que o homem nunca pisou na lua. Teria sido uma filmagem fake produzida em algum estúdio de Hollywood, para que os EUA ganhassem a batalha pela conquista do espaço. Se você quiser se divertir com esta teoria da conspiração, dá uma olha em “A fraude do século – A fraude do homem na Lua”.

Pelo menos essa narrativa tem lógica, com início, meio e fim. Os argumentos são bem formatados e no meio da extensa leitura você quase se pega concordando com a teoria. Só para constar, eu acredito que o Homem foi à Lua.

Mas a coisa evoluiu. A opinião ganha um status de ser um direito, não importa a base histórica ou científica. O pessoal fica martelando as suas crenças, numa esperança que, de tanto fazer barulho, isso acabará sendo admitido como verdade.

Os meus favoritos são os Terraplanistas. Eles acreditam que a terra é plana. Talvez tenham visto a capa daquele livro do Thomas Friedman “O mundo é plano” e acharam que isso era uma defesa dessa sandice.

Nós temos a nossa contribuição nacional a esta frente. Esta reportagem do G1 tem um título autoexplicativo: “Quem são e o que pensam os brasileiros que acreditam que a Terra é plana”. Afinal de contas não podemos deixar os outros passarem vergonha sozinhos.

Recentemente a Época fez uma reportagem sobre o nosso filósofo do momento, o Olavo de Carvalho. Ele inovou no conceito de ser neutro sobre a questão se a terra gira ou não em torno do sol. Para ele as duas teorias podem ser seguidas: o heliocentrismo ou o geocentrismo. O Galileo quase morreu queimado por defender que era a terra que girava em torno do sol, e não o contrário. A igreja já se desculpou por isso, mas para alguns isso ainda está em debate.

Até a gravidade não é real para essa gente. Não importa mais a ciência. Parece que não importa mais também a lógica. Invente uma teoria, publique, logo aparecem os seguidores. A coisa é tão elaborada que eles arrumaram um nome para quem acredita que a terra é redonda: os globalistas. E o pior, ainda afirmam que nós, globalistas, é que estamos sendo enganados.

E quando essa turma vai para o debate on line, aí é só alegria. Dá uma olhada no post abaixo e me diz se não dá vontade de chorar.

Pelo menos o assunto rende boas piadas. Veja abaixo como fica hilário explicar o ataque Japonês a Pearl Harbor.

E se parece que a loucura não poderia ser pior. Tem gente que não acha que a terra é plana, na verdade, eles acreditam que ela é uma rosca. Tipo um Donut. Se você ainda não viu essa, divirta-se neste link “''NOVA'' TEORIA DIZ QUE A TERRA NÃO É PLANA E SIM EM FORMATO DE ROSCA”.

Parece que abriram a porta do hospício. Na maioria das vezes dá para levar isso na brincadeira, mas há um lado perverso, que merece uma reflexão. Se há espaço para esse tipo de maluquice, há espaço para teorias menos fantásticas e igualmente erradas, que ganham corpo e não são inofensivas.

O que dizer da corrente dos que não acreditam em vacinas? Muita gente está morrendo por conta dessa atitude de negar a ciência e a medicina.

Um artigo da Galileu, de abril de 2019, tem um título autoexplicativo: “Epidemia de ignorância: movimento contra vacinas gera preocupação mundial”.

Tem gente que sonha em voltar aos tempos em que não existiam as vacinas. Uma época em que uma criança, em cada cinco, morria antes de completar cinco anos de idade. O enorme número de 20% dos nascidos morria de alguma doença infecciosa por falta de opção, e não havia remédio capaz de evitar isso. Agora temos as vacinas e essa sandice coletiva de grande parte da população está trazendo de volta doenças como o sarampo e a pólio.

Olha a frase abaixo da revista Saúde.

Em 2016, a meta de vacinação contra poliomielite (a paralisia infantil) não foi cumprida por aqui. Imunizamos 86% da população, ante os 95% recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Foi a pior taxa de vacinação dos últimos 12 anos. A pólio é considerada erradicada do Brasil desde 1990.

A coisa é real e está ficando feia. Chegamos a um ponto onde o seu direito de ter uma opinião não pode te dar ao direito de inventar fatos, por um motivo muito simples: isso mata.

 

Nuno Figueiredo

Engenheiro Eletrônico formado pela Mauá, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é um dos fundadores da Signa, onde atua desde 95. Entre outros defeitos, jogou rúgbi na faculdade, pratica boxe e torce pelo Palmeiras.

 

Foto: New York Post

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